Assim Simone vai tecendo a trama da memória com fios de imaginação. Tempos e fazeres se sobrepõem uns aos outros e o resultado são obras marcadas por uma intensa atividade.

Fragmento do texto de Beth Gloeden

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Correndo Riscos

 

Meu trabalho apresenta-se como uma montagem, uma sobreposição de tecidos, flores em tecidos, restos, linhas, tinta, oxidação e bordados. Trabalho com tecidos encontrados em armários, nos rituais de limpezas domésticas. Tecidos marcados pelo tempo, puídos e amarelados; mas também com os novos e vibrantes, leves ou transparentes.

Os conceitos envolvidos estão em torno da marca, da passagem do tempo e do comum ao cotidiano feminino.

Interessam-me os contrastes, as misturas e hibridações do velho com o novo. Do pesado com a leveza. Do sagrado e do profano.

A oxidação para mim esta relacionada com a memória, com o passado – resíduos pigmentados. Os óxidos ferrosos que se agregam ao tecido durante a oxidação refletem sobre o peso e a passagem do tempo.

Os outros materiais e procedimentos utilizados têm um caráter comum ao cotidiano feminino: Engomar tecidos, costurar, limpar armários, justapor sobras. Interessam-me tanto as questões mais eruditas como a questão da memória e do tempo quanto as mais ordinárias a uma agenda feminina. E o trabalho manual envolvido, a adornagem, serve apenas para agregar valor ou chamar a atenção a algo que normalmente vai fora, passa com o tempo.

Correndo Riscos

 Beth Gloeden

Artista Plástica, Especialista em Poéticas Visuais

No universo criativo de Simone Bernardi, a memória afetiva tem posição de destaque.  A partir de objetos conhecidos na infância, como os riscos de bordado da avó, Simone guia o seu fazer artístico, entre tecidos, fios de linha, flores de pano e objetos que agrega as suas telas. São pinturas híbridas, se uma classificação se fizer necessária e sua singularidade reside exatamente na transição entre o ser e o não ser.

Prevalece às vezes a pintura, que partiu de um risco de bordado, mas que ao longo do caminho se viu aplicada de flores, pedaços de panos estampados, tecidos expostos à intempérie, oxidados por metal.

Assim Simone vai tecendo a trama da memória com fios de imaginação. Tempos e fazeres se sobrepõem uns aos outros e o resultado são obras marcadas por uma intensa atividade. E essa atividade tem uma feição feminina que honra um fazer ancestral, concentrado e silencioso, exatamente como eram os momentos de reflexão da avó, enquanto bordava.

Como resultado, a prova da fragilidade da memória que desaparece em meio às tantas interferências do tempo.