Todas as denominações que caracterizam o trabalho de Simone Bernardi carregam um mundo paralelo que transita entre figuras femininas, que povoaram sua infância, e o desejo de eternizá-las através do tempo “que não consigo segurar” e da memória que vivifica os bordados de sua avó.

Fragmento do texto de  Nayr Tesser

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É primavera

 

Meu trabalho são pinturas e objetos de linguagem híbrida e apresenta-se como uma sobreposição de tecidos, tinta, oxidação e bordados.

Os conceitos envolvidos estão em torno da transitoriedade: A marca do corpo em roupas usadas. O velho de trapos desgastados e surrados justaposto à sensualidade do cetim, da seda ou do voal industrial.  O tecido é pele, corpo. As marcas são passagens, vertigens da intimidade transitória.

Os procedimentos do trabalho relacionam-se com atividades domésticas cotidianas. Como em rituais de limpeza, recolho e acumulo materiais diversos: tecidos guardados, vestidos usados, buquês de flores, pedaços de metal, cinzas e poeiras. A partir desses recolhimentos justaponho diversas técnicas, materiais e procedimentos. Interessa-me a junção de contrários, do antigo com o novo, da leveza com o pesado; assim como também a diversidade dos materiais e procedimentos utilizados. Minha intenção é a de explorar os elementos expressivos próprios dos materiais, suas relações e reações que nascem do contato entre tecidos, linhas e bordados.

A principal mudança ocorrida na atual série de trabalhos em relação à anterior está na inserção de novos tecidos e outros elementos da indústria da moda. A diversidades de materiais vêm agregar novas leituras ao trabalho. Os tecidos deixam de ser apenas recipientes da marca da transitoriedade do tempo, mas passam, simultaneamente a serem eles mesmos, cor, matéria e corpo.

 

É Primavera

Nayr Tesser

Todas as denominações que caracterizam o trabalho de Simone Bernardi carregam um mundo paralelo que transita entre figuras femininas, que povoaram sua infância, e o desejo de eternizá-las através do tempo “que não consigo segurar” e da memória que vivifica os bordados de sua avó.

É um achado singular conseguir costurar a vida e seus afetos, o coração, seus puídos e remendos, para, legitimando-os, através de uma força vital e simbólica, libertá-los da passagem do tempo, do envelhecimento, da morte e, com o ato criador, fazer valer as fantasias, eternizando-as. A originalidade de sua obra foi exatamente ter conseguido realizar esta síntese.

Neste longo, penoso e feliz processo tudo foi depurado fio a fio, impregnações, aderências, remendos, bordados, alma e coração. A oxidação das lembranças conseguiu florescer. É primavera!