Armando Almeida sobre a artista Simone Bernardi

Toda Geração carrega suas particularidades, gravando e inserindo contextos próprios e inerentes aquele(s) período.

Me lembro bem a geração dos anos 80-90, assim como outras anteriores e posteriores foram também expressivas pela liberdade de errar, inventar, experimentar, dialogar, fazer argumentos de imagens e processos criativos.

Simone Bernardi pertenceu a uma destas gerações. Desenvolvemos juntos uma dinâmica muito forte de trabalho, desempenho artesanal e aprimoramento técnico.

Desenvolveu na calcografia gravura em metal tudo o que foi possível, valendo-se de soluções básicas e imprescindíveis, como a água forte, a água tinta, o relevo impresso a cores em suas composições abertas ou fechadas e de uma exemplar impressão.

Participou ativamente de vários eventos de expressão, o que lhe proporcionou merecidamente algumas premiações e destaques. Eram gravuras de pequeno formato, mas Simone foi capaz de fazer uma grande gravura.

Armando Almeida, Porto Alegre, 22 de setembro de 2004

 

É Primavera - Simone Bernardi

Meu trabalho são pinturas e objetos de linguagem híbrida e apresenta-se como uma sobreposição de tecidos, tinta, oxidação e bordados.

Os conceitos envolvidos estão em torno da transitoriedade: A marca do corpo em roupas usadas. O velho de trapos desgastados e surrados justaposto à sensualidade do cetim, da seda ou do voal industrial.  O tecido é pele, corpo. As marcas são passagens, vertigens da intimidade transitória.

Os procedimentos do trabalho relacionam-se com atividades domésticas cotidianas. Como em rituais de limpeza, recolho e acumulo materiais diversos: tecidos guardados, vestidos usados, buquês de flores, pedaços de metal, cinzas e poeiras. A partir desses recolhimentos justaponho diversas técnicas, materiais e procedimentos.            Interessa-me a junção de contrários, do antigo com o novo, da leveza com o pesado; assim como também a diversidade dos materiais e procedimentos utilizados. Minha intenção é a de explorar os elementos expressivos próprios dos materiais, suas relações e reações que nascem do contato entre tecidos, linhas e bordados.

A principal mudança ocorrida na atual série de trabalhos em relação à anterior está na inserção de novos tecidos e outros elementos da indústria da moda. A diversidades de materiais vêm agregar novas leituras ao trabalho. Os tecidos deixam de ser apenas recipientes da marca da transitoriedade do tempo, mas passam, simultaneamente a serem eles mesmos, cor, matéria e corpo.

É Primavera - Nayr Tesser

Todas as denominações que caracterizam o trabalho de Simone Bernardi carregam um mundo paralelo que transita entre figuras femininas, que povoaram sua infância, e o desejo de eternizá-las através do tempo “que não consigo segurar” e da memória que vivifica os bordados de sua avó.

É um achado singular conseguir costurar a vida e seus afetos, o coração, seus puídos e remendos, para, legitimando-os, através de uma força vital e simbólica, libertá-los da passagem do tempo, do envelhecimento, da morte e, com o ato criador, fazer valer as fantasias, eternizando-as. A originalidade de sua obra foi exatamente ter conseguido realizar esta síntese.

Neste longo, penoso e feliz processo tudo foi depurado fio a fio, impregnações, aderências, remendos, bordados, alma e coração. A oxidação das lembranças conseguiu florescer. É primavera!

Colher amoras - Simone Bernardi

Um amigo perguntou-me sobre as marcas em meu trabalho.

Marcas para mim são impressões que ficam.

Impressões e contato.

Interessa-me a antropologia da marca, o triplo contato. Às vezes feliz, às vezes doloroso, pesado ou colorido: Da matéria, da carne-tecido e do desaparecimento.

Falando de procedimentos do trabalho, as impressões que me interessam são diferentes, por exemplo, das resultantes da gravura em metal. Nestas, as marcas impressas no papel vêm do desenho feito sobre a superfície da chapa de cobre.

As marcas nos tecidos são como as da nossa existência.

Onde fica marcado, o que fica marcado, tem dor.

Mas não é só isso o que vejo, também me atentam as amoras, o doce das amoras, a cor de amora.

Correndo Risco - Simone Bernardi

Meu trabalho apresenta-se como uma montagem, uma sobreposição de tecidos, flores em tecidos, restos, linhas, tinta, oxidação e bordados. Trabalho com tecidos encontrados em armários, nos rituais de limpezas domésticas. Tecidos marcados pelo tempo, puídos e amarelados; mas também com os novos e vibrantes, leves ou transparentes.

Os conceitos envolvidos estão em torno da marca, da passagem do tempo e do comum ao cotidiano feminino.

Interessam-me os contrastes, as misturas e hibridações do velho com o novo. Do pesado com a leveza. Do sagrado e do profano.

A oxidação para mim esta relacionada com a memória, com o passado – resíduos pigmentados. Os óxidos ferrosos que se agregam ao tecido durante a oxidação refletem sobre o peso e a passagem do tempo.

Os outros materiais e procedimentos utilizados têm um caráter comum ao cotidiano feminino: Engomar tecidos, costurar, limpar armários, justapor sobras. Interessam-me tanto as questões mais eruditas como a questão da memória e do tempo quanto as mais ordinárias a uma agenda feminina. E o trabalho manual envolvido, a adornagem, serve apenas para agregar valor ou chamar a atenção a algo que normalmente vai fora, passa com o tempo.

Correndo Riscos - Beth Gloeden

No universo criativo de Simone Bernardi, a memória afetiva tem posição de destaque.  A partir de objetos conhecidos na infância, como os riscos de bordado da avó, Simone guia o seu fazer artístico, entre tecidos, fios de linha, flores de pano e objetos que agrega as suas telas. São pinturas híbridas, se uma classificação se fizer necessária e sua singularidade reside exatamente na transição entre o ser e o não ser.

Prevalece às vezes a pintura, que partiu de um risco de bordado, mas que ao longo do caminho se viu aplicada de flores, pedaços de panos estampados, tecidos expostos à intempérie, oxidados por metal.

Assim Simone vai tecendo a trama da memória com fios de imaginação. Tempos e fazeres se sobrepõem uns aos outros e o resultado são obras marcadas por uma intensa atividade. E essa atividade tem uma feição feminina que honra um fazer ancestral, concentrado e silencioso, exatamente como eram os momentos de reflexão da avó, enquanto bordava.

Como resultado, a prova da fragilidade da memória que desaparece em meio às tantas interferências do tempo.

 

Beth Gloeden (Artista Plástica, Especialista em Poéticas Visuais).

Flores oxidadas: impregnações e aderências em tecidos guardados - Simone Bernardi

Esse trabalho está relacionado com o tempo, a memória e as atividades cotidianas. Nasce da relação que estabeleço com um lençol bordado por minha avó e remendado por minha mãe. Pinturas e objetos de linguagem híbrida, envolvendo procedimentos da pintura, gravura, desenho e bordado.

As partes remendadas formam um palimpsesto onde meu trabalho é acrescido das ações de minha mãe e minha avó. Uma montagem de imagens, planos e ações, uma montagem de memórias.

Os procedimentos do trabalho relacionam-se com atividades domésticas ordinárias: seleção e limpeza, abrir e fechar gavetas, organizar armários, explorar objetos deixados no sótão. São ações ativadoras de memórias, sentimentos e emoções. Como em rituais de limpeza, recolho e acumulo materiais diversos: tecidos guardados, vestidos usados, restos de buquês de flores, pedaços de metal, cinzas e poeiras. Um dia usados e encontrados num emaranhado de esquecimentos.

Minha intenção é a de explorar os elementos expressivos próprios dos materiais, suas relações e reações que nascem do contato entre tecidos, linhas e bordados com a oxidação de metais diversos.

Ao apropriar-me de restos e roupas usadas, minha intenção é a observação atenta das mudanças contínuas e cotidianas da vida. Trabalhar com sobras de roupas marcadas é comparável a decifrar as próprias marcas do corpo, da pele nua. Verdadeiras referências da identidade. A oxidação corresponde ao peso do tempo; as flores e bordados à iluminação do espírito.